Palavras ao vento - Cap 56

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Palavras ao vento - Cap 56

Mensagem  Fernanda em Ter Dez 01, 2009 2:16 am

Capitulo 56


“Um terrível pesadelo, é isso”, Isa repetia a si mesma, mas a cada passo que dava
em direção a Julia, percebia que era a mais pura realidade. Em meio a tantos de seus
pesadelos, sempre conseguia acordar e respirar aliviada, mas dessa vez, a dor que
invadia seus pulmões era real e dilacerante.
Ao lado da cama, observou o monitor cardíaco que exercia sua função de monitorar o
batimento do coração que, horas atrás, pulsava de amor apenas.
Tocar a mão da namorada fez com que a culpa revirasse-lhe a alma, e as lágrimas
jorraram profusamente, sem controle algum.
- Se não tivesse sido tão egoísta, meu amor, isso não teria acontecido. Eu devia ter
pedido pra você voltar, mas compreendi tarde demais, que seu desejo era só me dar
uma noite especial - as palavras fluíram enquanto acariciava a mão de Julia.
- Meu amor me perdoe, por favor. Volte pra mim! Não posso ficar sem o seu amor. Sei
que não o mereço, mas farei de tudo para merecê-lo. Nunca senti tanta dor em minha
vida, como estou sentindo agora.

- Você tem que sair agora - disse a enfermeira.
Isa apenas olhou para a enfermeira, fazendo um gesto afirmativo com a cabeça. Sua
vontade era ficar ao lado de Julia até que acordasse, mas isso não era possível.
Despediu-se com um toque suave no rosto de sua amada.
– Ju, eu vou ficar lá fora até você acordar. Sei que você está aqui, e pode me ouvir.
Volta pra nós! Sei que a magoei, e estou me sentindo a pior pessoa do mundo por
isso. Mas quero que saiba que te amo tanto, mesmo acreditando a todo o momento
que não a mereço.

- Minha querida, você tem que ir - insistiu a enfermeira comovida com a dor de Isa. –
Quando foi resgatada, ela segurava forte este pedaço de papel, que esqueci de
entregar para Vanessa. Pode fazer isso por mim?
- Sim - respondeu segurando em sua mão o papel manchado de sangue.
Saiu sem desviar os olhos de Julia que permaneceu completamente inerte.
Os passos pelo corredor se tornaram pesados, o olhar triste e perdido a fez buscar
uma ínfima fresta, por onde pudesse sentir sua amada. Ergueu a mão que, firme,
mantinha o pedaço de papel que ela segurou até ser resgatada.
Não importa o nível de escuridão, o amor sempre encontra meios de se fazer
entender, perpetuando na história humana a luz que é capaz de transpor os liames
da existência humana.

Lentamente, temendo pelas palavras que ali estivessem contidas, Isa desdobrou o
papel com cuidado. Estupefata lia com avidez cada palavra, sentindo as mãos
tremerem e o coração descompassar.
Encostou-se à parede, tentando se suster, em vão. O corpo deslizou, forçando-a a se
agachar.
“Definitivamente estou em meio a um sonho”, pensava enquanto relia o conteúdo
daquela folha que um dia escreveu e, por obra do destino, perdeu no mesmo instante.

Através da porta de vidro, Mari viu Isa no chão. Sem aviso, foi em socorro de sua
amiga.
- Isa o que aconteceu? - indagou Mari assustada, e temerosa pela resposta.
- Mari ela achou - repetia insistente entre soluços descontrolados.
- Achou o que, Isa? - argüiu Mari agachada ao lado da amiga.
Isa estendeu-lhe a mão, apresentando um papel todo manchado de sangue. Mari
começou a ler. Agachada que estava não sustentou suas pernas e quase caiu de
costas pelo espanto.
– Isa, como ela achou?
- Não sei, amiga - falou reclinando a cabeça nas pernas de Mari, que lhe afagou os
cabelos, e a abraçou.

– Lembra que você me disse que a pessoa certa encontraria?
- Lembro - afirmou Mari, sem conseguir conter a emoção.
A cena das duas causou pânico nas pessoas que estavam olhando-as. Começaram a
questionar se Julia tinha morrido.

Vanessa que observava a cena, ao ouvir os murmúrios, se desesperou.
- Calem a boca. Ela não morreu - gritou com ênfase.
Julinho correu para os braços da mãe, e seu marido também.

Matheus, mesmo tendo o coração apertado por ver o sofrimento de Isa, manteve-se
sereno. Ao ver o desespero que se apossou de todos os presentes, decidiu saber o
que tinha acontecido.
- Meninas - a voz soou segura, atraindo o olhar das duas. - A Julia se foi? -
perguntou ao ver-lhes o estado pálido, e o pranto copioso em que estavam imersas.
- Não! - afirmou Mari categórica.
- Então vamos sair daqui, não podem ficar aqui no corredor, o estado de vocês está
criando pânico nas pessoas – informou enquanto amparava-as até a sala de espera.

Vanessa continuava com seu filho no colo. Ao ver Isa entrando, a olhou
profundamente, esperando uma resposta. Mas foi Mari quem foi ao seu encontro
para dizer que o estado de Julia permanecia o mesmo.
- Eu sabia que ela não tinha ido ainda, e nem vai. Minha amiga é forte - afirmou
Vanessa. – Mari eu não tenho cabeça para ir ao seu casamento.
- Não se preocupe Vanessa. Se eu pudesse adiaria.
As duas continuaram conversando.
Isa continuava lendo sua poesia, e se perguntando por que Julia não tinha falado
para ela, mas também não podia saber que era minha. Só podia ser coisa de Deus.
Naquele instante, percebeu que as palavras perdidas ao vento, encontraram um
destino certo. Escritas no anseio de seu coração em encontrar o amor, foram levadas
pelo vento, para alguém que estava desistindo do amor.
Atordoada com a descoberta da poesia, sofrendo por ver Julia naquele estado, com
medo de não ter a chance de dizer que a amava mais do que tudo em sua vida, e que
nunca mais a magoaria, não percebeu o passar das horas.
Mari e Matheus permaneceram ao seu lado, enquanto o tempo não lhes impôs o
toque de saída.
- Isa, nós temos que ir. Você quer voltar para casa conosco, ou quer ficar? Nunca
pensei que o dia do meu casamento seria tão sem clima - disse Mari com tristeza.
- Eu vou ficar. Mari me perdoe por não poder estar ao seu lado. Sabe o quanto a Julia
e eu queríamos estar com vocês neste dia - disse segurando as mãos do casal,
olhando-os profundamente.
- Mari, me prometa que quando chegar no cartório e na igreja, vai esquecer tudo isso.
Quero que fique feliz. E você, Matheus, quero que seja feliz, e faça minha amiga a
mulher mais feliz deste mundo, porque eu não vou agüentar ela reclamando de você
todo o tempo, está ouvindo? Vou ter que mandar a Julia te dar uns tapas para entrar
na linha - disse tentando impor um tom alegre e confiante em suas palavras.

Matheus deixou um sorriso brotar em seus lábios. Mari percebeu o sacrifício que sua
amiga fazia para deixá-los bem. Emocionados se abraçaram.
Eram oito horas e trinta minutos, quando Isa acompanhou-os até o ponto de táxi, em
frente à clínica. Ficou mais um tempo vendo seus amigos indo embora.
Olhou para o céu nublado. A manhã estava cinza, como tudo naquele dia. Um vento
forte e frio tocou-lhe o rosto, e desarrumou-lhe o cabelo. Sentia-se completamente
perdida. Foi quando se lembrou da capela que tinha na clínica, e foi para lá em busca
de um milagre.
Ao entrar fez o sinal da cruz, e olhou para o altar. Observou várias imagens de
santos que não conhecia. Uma vela grande queimava no centro do altar. Fixou-se
nela, tentando encontrar um pouco de luz para seu coração que, abatido estava pela
dor e culpa, e não a deixou um segundo sequer, desde o instante em que soube do
acidente de seu amor. Ocupou o lugar ao lado de um rapaz, e se ajoelhou. Fez
todas as orações que sabia e promessas.

- Oi - o rapaz a saudou assim que se sentou no banco.
Secou os olhos com um lenço e se virou para olhar o rapaz.
- Você! - disse surpresa ao ver aquele rosto conhecido.
- Vejo que ainda se lembra de mim - gracejou ele.
- Sim, nunca me esqueço de um rosto. Mas o seu nome confesso que não lembro.
Não te ouvi naquele dia, e o sofrimento foi inevitável.
- Não tinha que confiar em uma pessoa que nunca viu na vida - falou compreensivo.
- Me chamo Lucas.
- Lucas, agora não esqueço mais – disse enquanto uma lágrima fugidia traçou-lhe um
caminho de fogo pela face. Sua tristeza era tamanha, que as lágrimas escapavam-lhe
sem perceber. – Desculpe, não estou conseguindo me controlar.
- Eu entendo, mas lhe digo que não pode continuar assim. Quando a pessoa que ama
ficar bem vai precisar muito de você.
- Você acredita que ela ficará bem? - perguntou Isa. Depois de horas de tristeza
profunda, aquele rapaz que mal conhecia, a fez ter esperança novamente.
- Acredito! - sentenciou categórico.
- Então, tenho que ficar bem por ela.
- Tem sim - disse em perfeita concordância. – Seja forte Isa, e não desista do amor,
mesmo quando ele não te reconhecer. Agora preciso ir.
- O que quis dizer com isto? Quem é você? Que aparece e me conforta, mas me deixa
dúvidas quando vai embora.
Ele se levantou e sorriu largamente para ela.
– A gente se vê por aí - disse apenas.
- Ta - conformou-se resignada. – Obrigada pela conversa. Desta vez vou te ouvir.
- Eu sei que vai - foi a última coisa que ele disse, antes de sair da capela, deixando
Isa com seus pensamentos.

Isa terminou suas orações e subiu para o andar em que Julia estava. Vanessa veio ao
seu encontro, e a abraçou.
- Os médicos vieram me dizer que ela teve uma melhora significativa nesta última
hora. De algum modo você a fez reagir e querer voltar.
- Eu só disse que não podia ficar sem ela.
- E ela ouviu - respondeu Vanessa abraçando-a novamente.
E a esperança no coração de Isa se agigantou. As horas passavam. Julia continuava
a surpreender os médicos, e todos se alegravam com a melhora de sua paciente.

Continua...

Fernanda
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