Palavras ao Vento - Cap 58

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Palavras ao Vento - Cap 58

Mensagem  Fernanda em Dom Fev 28, 2010 2:07 am

Isa conseguiu chegar a tempo de ver o final do casamento. Sabia que não poderia deixar Mari, no dia mais feliz da vida dela, mesmo que seu dia fosse o mais triste.



- Mari você está linda! - disse próxima ao ouvido de sua amiga, depositando-lhe a seguir, um beijo carinhoso na face.



- Isa não pode falar isso para mim, agora sou uma mulher casada, se me queria porque demorou tanto para dizer? - entregou faceira.



Isa se afastou encarando-a nos olhos, balançou a cabeça e sorriu.



- Você não tem jeito, só assim para me fazer rir – um sorriso que durou alguns segundos apenas, e Mari viu a tristeza retornar ao rosto de sua amiga.



Mari, inesperadamente, chamou todas as mulheres que ainda estavam do lado de fora da Igreja, pois queria jogar o buquê. Sabia que Isa não iria a festa, e ela sempre gostou de tentar pegar o famoso buque da noiva.



Isa se afastou um pouco, já que não estava com animo para entrar naquela alegre disputa,



- Isabel se você não vier logo aqui, eu juro que te rogo uma praga - gritou Mari de forma agitada. – Sabia que praga de noiva pega?





Ante o chamado insistente das mulheres presentes, e para não causar um alvoroço ainda maior, Isa postou-se no meio da multidão. “Será que a Julia estaria aqui no meio?”, pensou. Balançou a cabeça na esperança de desanuviar os pensamentos, ergueu os braços como as outras moças, e ficou esperando.

Era certo que não pegaria o buquê, e não fez o mínimo esforço para que isso acontecesse. Mas ao contrario do que imaginou, ele veio direto para suas mãos.



Impossível não pensar que, justo no dia em que não lutou feito maluca para pega-lo, ele veio direto para suas mãos. Foi imersa em sua divagação que acompanhou as demais se afastarem, inteiramente desiludidas.



- Você jogou para mim, não é dona Mari? Deve ter combinado com as outras para ninguém pegar - acusou docemente.



- Acha que sou capaz disso? - perguntou fazendo cara de inocente.



- Acho que é capaz de tudo, dona Mari! Mas será que é verdade está história de pegar o buquê? Será que serei a próxima?





- Não sei minha amiga, vamos ver. Ao contrario do que está pensando, a sorte foi sua. Era para ser seu, porque afinal, você se escondeu no meio das encalhadas - disse Mari zombeteira. - Até minha tia de sessenta e três anos estava no meio - sorriu com a lembrança. - E ele caiu justo em suas mãos.



Isa agradeceu a amizade que as unia, pois em seu momento de angustia e incertezas, contava com a generosidade de Mari para lhe arrancar dos lábios um sorriso, ainda que amarelo. Na despedida um abraço acolhedor e afetuoso, e Isa foi embora com seu buque.







Uma semana depois.



Julia melhorava a cada dia, mas ainda não tinha acordado, e já estava no quarto. Vanessa tinha deixado o aviso a todos que Isa poderia entrar a hora que quisesse. Depois do trabalho corria para o hospital para ficar com Julia, e a cada dia, esperava ansiosa que seu amor acordasse.

Os encontros com a mãe de Julia se tornaram freqüentes, inevitáveis, e de algum modo tinha conseguido se impor para sua futura sogrinha. Não se falavam, mas também não era convidada a se retirar do quarto. Permanecia por perto, às vezes ia para a lanchonete, numa atitude de inteiro respeito ao momento entre mãe e filha, e de outros parentes que iam visitar Julia.





- Oi Isa, nada da bela adormecida acordar? - perguntou Vanessa indo ao seu encontro, vendo-a distraída, com o olhar fixo no por do sol pela janela.



- Nada, parece que ela não quer mais acordar.



- É assim mesmo Isa, mas ela está bem, todos os dias eu converso com os médicos, e me afirmaram que ela está reagindo bem aos medicamentos. Olha só, ela já está mais coradinha, acho que é questão de horas.



- Queria estar aqui quando acordasse - disse Isa tocando levemente o rosto de Julia, que realmente tinha ganhado cor.



- Só dei uma passada para vê-la. Tenho que ir para casa, o Julio não esta muito bem.



- Eu conversei com ele na escola. Ele estava meio quietinho de fato.



- Meu filho fala demais e quando fica quieto é porque não está bem.



Vanessa deu um beijo na testa de Julia e falou algo no ouvido dela. Deu a volta pela cama, abraçou Isa e foi embora.





Isa iria esperar a troca de plantão dos médicos. Gostava de conversar com uma médica do período da noite. Às vezes, sentia um interesse a mais da médica por ela, mas como sua preocupação era exclusiva em Julia, deixava aquela impressão passar bem longe dela.



Sentou-se ao lado de Julia, segurou sua mão e ficou relembrando os seus últimos beijos.



O leve aperto em sua mão a fez despertar de seu devaneio, erguendo-se impulsivamente.

Imaginou que em seu delírio de amor, seu desejo estivesse lhe pregando uma peça, já que sua amada não tinha manifestado um movimento sequer. Os olhos fixaram no rosto de sua namorada, que de fato, parecia estar despertando. O que foi confirmado pelo aperto mais forte em sua mão, e os olhos que se esforçaram numa abertura lenta.

A emoção tomou conta de Isa, ao ver que Julia estava voltando para ela.











A principio enxergou apenas um espaço escuro, mas aos poucos a visão foi acostumando-se com a claridade, o que lhe possibilitou ver um par de olhos verdes em sua frente. Ainda perdida no tempo e espaço, desviou o olhar no intuito de se localizar melhor, o gesto a fez gemer de dor, pelo esforço empreendido.



Encarou novamente a jovem que a fitava com lágrimas nos olhos. Tentou falar, mas não conseguiu.



Isa não conteve o arroubo emocional que dela se apossou, e abraçou Julia, distribuindo incontáveis beijos em seu rosto, até tocar-lhe os lábios, onde depositou um beijo suave. Afastou-se e começou a falar sem parar.



- Meu amor, senti tanto medo de te perder, você demorou muito a acordar! Mas estive todos os dias ao seu lado, rezando para que voltasse pra mim. Eu juro não te magoar mais daquela maneira - com dificuldade tentou conter as lágrimas, fitando novamente os olhos de sua amada.



- Eu não sei quem é você moça. Por favor, chame alguém que eu conheça - disse Julia com dificuldade ainda.



- Julia, eu sei que está magoada comigo, mas não faça isso, meu amor, não brinque deste jeito - falou em pura ansiedade. - Você não está brincando, não é?



- Não - respondeu Julia com dor na garganta.



Isa sentiu o chão se abrir aos seus pés, sem se dar conta, começou a caminhar de costas, mas sem tirar os olhos de Julia. O coração apertou-se em seu peito, o que a fez virar-se e sair correndo do quarto, quase atropelando a tal médica que vinha no corredor.



- Isabel o que foi? - perguntou Dra. Alexia, amparando Isa. – Por que está assim? - insistiu encarando a pequena mulher em seus braços.



Alexia, dona de um olhar penetrante, seu porte recordava a altura de Julia, por volta de 1,82, cabelos ruivos e ondulados, na altura dos ombros, realçando seus olhos verdes. Mantinha os cabelos sempre soltos, mas naquela noite ela o prendera num rabo de cavalo.



- A Julia acordou - respondeu Isa libertando-se do contato.



- Agora?



- Sim.



Dra Alexia falou com uma auxiliar de enfermagem e pediu que chamasse a equipe para ver Julia, enquanto ela e Isa aguardariam no quarto.



- Dra. Julia! Que alegria em vê-la acordada. Eu já chamei a equipe, e enquanto aguardamos, tenho que fazer algumas perguntas. Consegue respondê-las?



Com dificuldade Julia disse que sim.



- Então vamos começar. Sabe o meu nome?



- Dra Alexia. Para não ficarmos perdendo tempo, adianto que minha visão está ótima, estou ouvindo muito bem, sinto o meu corpo todo, tenho dores, minha cabeça e minha garganta doem. Não me lembro dela. Para terminar: o que aconteceu comigo, porque isso também não lembro.





Isa estava arrasada ao ver que não fazia parte das lembranças de Julia. “Como ela pode ter se esquecido de mim?”, se questionava, sem a recordação das palavras de um sábio amigo. Quando os médicos chegaram, saiu e ficou no corredor, pegou o celular e ligou para Vanessa contando que Julia tinha acordado.



Parte da equipe que cuidava dela, estava de plantão naquela noite. Dez minutos depois da chegada dos médicos, Julia foi levada para fazer exames. Isa estava encostada na parede ainda com o celular na mão, quando seu amor saiu do quarto. A troca de olhares se fez, o dela era de amor e o de Julia era uma nítida interrogação apenas.



Meia hora depois Vanessa chegou, e Julia ainda não tinha retornado. Encontrou Isa triste, sentada no sofá. O primeiro pensamento foi em uma possível briga entre elas.



- Isa cadê ela? Foi fazer exames?



- Van ela esqueceu de mim - soltou Isa de uma vez sem dar chance de Vanessa perguntar o porque dela não parecer bem.



- Como assim esqueceu?



- Esquecendo. Ela se lembra de muitas coisas, menos de mim. Eu a magoei a este ponto.



- Isabel isto é normal, quando se tem um traumatismo como ela teve. Temos que torcer para que não tenha seqüelas piores que esta.



- Acho que não teve. Ela disse que sentia o corpo, só a cabeça e a garganta que a estava incomodando.



- Graças a Deus! - disse Vanessa. – E não fica assim, daqui uns dias ela se lembra de você.



- Você acha mesmo? - indagou Isa sentindo um principio de esperança que até aquele momento tinha desaparecido de seu coração.



- Claro - tentou transmitir plena confiança. – Isa eu vou ver onde ela está.



- Tudo bem - resmungou Isa em pura resignação.



Vanessa não precisou ir muito longe, pois sua melhor amiga já estava sendo trazida pelos enfermeiros. Voltou correndo, pois queria que ela a encontrasse no quarto a sua espera. – Ela está vindo Isabel - disse eufórica.



Isa não se moveu do lugar, resignada ante a idéia de ter sido esquecida.



Os enfermeiros entraram e colocaram Julia em sua cama novamente. Vanessa tentou ajudar, mas a vontade de abraçar e beijar sua melhor amiga falou mais forte, e foi o que fez. A decepção também veio a seguir, pois Julia não manifestou reação alguma.



Isa se levantou e foi para junto de Vanessa, que não queria aceitar o fato de ter sido esquecida por sua amiga. Apesar de sua própria tristeza, Isa tentou acalmar Vanessa.



- O que vocês duas querem que eu faça? Não me lembro de vocês. Por favor, me deixem em paz, eu já tenho meus próprios problemas - disse Julia tendo o cansaço refletido na voz. – E você, quem é? - indagou olhando pra Vanessa.



- Sou sua melhor amiga desde criança, e sua comadre. Não me diga que esqueceu do Julio também? - questionou Vanessa revelando em seus olhos a preocupação com seu filho.



- Meu afilhado, como ele está? Não me esqueci dele. Olha, minha cabeça está confusa, quero dormir. Podem ir - pediu Julia. – Desculpem-me, vocês parecem ser pessoas importantes para mim, mas não sei quem são.



Vanessa saiu sem se despedir. Não era de sua natureza ser impulsiva assim, porém em sua cabeça Julia poderia esquecer de todos menos dela. “Mas ela esqueceu até de Isabel”, refletiu por um instante. Deu meia volta, voltou para o quarto de Julia. Caminhou até ela, lhe deu um beijo, disse tchau e foi embora novamente, sem olhar para trás. Tal atitude acabou tirando um sorriso dos lábios de sua amiga, mesmo não entendendo nada.



- Ela é assim? - perguntou para Isa que ainda não tinha ido embora.



- Não a conheço muito bem, mas eu acredito que sim. Ela ficou chateada por não se lembrar dela.



- Eu sou médica, e não posso me curar. Não sei quem será a próxima pessoa a entrar por está porta. Será que vou saber quem é? Eu vi como vocês ficaram, a cara de decepção. Bem que eu queria estar brincando, como você me perguntou. Minha cabeça está muito confusa - disse e em seguida levou as mãos à cabeça, sentindo uma dor que a fez gemer.



Isa sentiu uma vontade enorme de abraçá-la, mas não sabia como ela reagiria a este novo contato, já que o primeiro não fora nada bom. Querendo ou não, ela era uma mera estranha para seu amor.



- Relaxa Dra. Julia, você acabou de acordar, não tem que lembrar de todo mundo. Teve um traumatismo muito grande no cérebro, e o mais importante é que estamos felizes de você não ter tido outras seqüelas além dessa - falou demonstrando compreensão. – Vou te deixar descansar agora. E não vai ficar se torturando com as pessoas que entrarem pela porta e você não conhecer. Vou sair do quarto, e quando eu retornar já não serei mais uma desconhecida. Veja...



Isa saiu do quarto e retornou com um lindo sorriso no rosto.



- Olá, eu sou a Isabel disse estendendo a mão para Julia.



- Eu você já conhece sorriu Julia segurando a mão de Isabel.



O contato foi expressivo, pois sentiu como se uma descarga elétrica percorresse seu corpo inteiro, mas não o suficiente para fazê-la ter suas lembranças de volta. Só uma certeza se confirmou em seu interior: aquela linda mulher de olhos verdes e de rosto angelical tinha algum poder sobre ela. Mergulhada em suas incertezas, soltou a mão de Isabel.



- Tchau - disse Isa, já caminhando para a porta, mas antes de alcançá-la ouviu a voz de Julia lhe chamar. Virou-se.



- Isabel, você volta amanhã?



- Você quer que eu volte? - perguntou Isa com o coração saltitante.



- Eu gostaria - respondeu, dando-lhe um tchauzinho com a mão.



- Então voltarei - respondeu Isa repetindo o mesmo gesto de Julia.



Isa foi embora feliz. “Ao menos ela quer que eu volte”, sorriu. Mas antes de sair do hospital, passou na capela e agradeceu por seu amor ter voltado mesmo não se lembrando dela.



Julia dormiu até as enfermeiras voltarem para dar os remédios, e medir sua temperatura e pressão. Não passou despercebido o estado febril em que ela se encontrava. Imediatamente confirmaram a suspeita através do termômetro, informando para Dra. Alexia, que veio no mesmo instante ver sua paciente. Receitou-lhe uma medicação e antes de deixar o quarto, Julia já tinha dormido novamente.



Continua....

Fernanda
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